Naquela
terra de sonhos grandes e horizontes curtos, o mundo dividia-se estritamente entre as Marias e
os Maneis. Não era falta de imaginação, longe disso! Era uma espécie de
preguiça sagrada misturada com um respeito tão profundo pelos antepassados que
quase roçava o medo de que, se chamassem outro nome, o fantasma do avô se
enganasse na morada. Imagine-se o caos cósmico de um homem gritar
"Maria!" à janela e ver trinta cabeças espreitarem ao mesmo tempo,
todas com o mesmo olhar severo, prontas para deserdar o atrevido.
Nesses tempos, a moda era de uma
simplicidade quase gótica. As mulheres vestiam-se com a escuridão da noite,
como se guardassem o luto eterno de um segredo que ninguém ousava perguntar. Já
os homens operavam um milagre semanal: a metamorfose da véspera de sábado.
Passavam seis dias camuflados na poeira do trabalho e, de repente, ao sétimo
dia, surgiam lavados e perfumados, brilhando como reis de província na missa ou
na taberna, para logo na segunda-feira regressarem à sua gloriosa armadura de
terra.
Mas a vida, essa criatura paradoxal e meio louca, corria por baixo dessas roupas escuras. O palco do mundo estava sempre dividido em dois lados que teimavam em não se cruzar, mas que dançavam a mesma música:
Os
eternos figurantes do bloqueio: aquelas almas cinzentas que gastaram os seus dias a tentar atrapalhar o
passo alheio. Ficaram para trás, petrificadas no próprio labirinto dos seus
pensamentos invejosos, enquanto a caravana passava.
Os
zangados de alma viva: Gente que
andava em guerra aberta com o destino, de punhos cerrados contra a vida, mas
que, curiosamente, no meio da tempestade da sua fúria, continuavam a trabalhar
e a amar com uma intensidade feroz.
Os ilusionistas do tempo: os poucos que, sem saberem lidar com a crueza do presente, tentavam fintar a realidade embrulhando-a em presentes caros e comemorações ruidosas, como quem tenta tapar o sol com uma peneira.
No fim, entre Marias poetas e, Maneis
domingueiros, a vida revelou-se esta maravilhosa loucura: uma comédia onde
todos sabiam o guião, mas fingiam sempre que era a primeira vez que entravam em
cena.