04/10/26

PORMENORES DA VIDA

 


        Naquela terra de sonhos grandes e horizontes curtos, o mundo dividia-se estritamente entre as Marias e os Maneis. Não era falta de imaginação, longe disso! Era uma espécie de preguiça sagrada misturada com um respeito tão profundo pelos antepassados que quase roçava o medo de que, se chamassem outro nome, o fantasma do avô se enganasse na morada. Imagine-se o caos cósmico de um homem gritar "Maria!" à janela e ver trinta cabeças espreitarem ao mesmo tempo, todas com o mesmo olhar severo, prontas para deserdar o atrevido.

       Nesses tempos, a moda era de uma simplicidade quase gótica. As mulheres vestiam-se com a escuridão da noite, como se guardassem o luto eterno de um segredo que ninguém ousava perguntar. Já os homens operavam um milagre semanal: a metamorfose da véspera de sábado. Passavam seis dias camuflados na poeira do trabalho e, de repente, ao sétimo dia, surgiam lavados e perfumados, brilhando como reis de província na missa ou na taberna, para logo na segunda-feira regressarem à sua gloriosa armadura de terra.

       Mas a vida, essa criatura paradoxal e meio louca, corria por baixo dessas roupas escuras. O palco do mundo estava sempre dividido em dois lados que teimavam em não se cruzar, mas que dançavam a mesma música:

     Os eternos figurantes do bloqueio: aquelas almas cinzentas que gastaram os seus dias a tentar atrapalhar o passo alheio. Ficaram para trás, petrificadas no próprio labirinto dos seus pensamentos invejosos, enquanto a caravana passava.

      Os zangados de alma viva: Gente que andava em guerra aberta com o destino, de punhos cerrados contra a vida, mas que, curiosamente, no meio da tempestade da sua fúria, continuavam a trabalhar e a amar com uma intensidade feroz.

      Os ilusionistas do tempo: os poucos que, sem saberem lidar com a crueza do presente, tentavam fintar a realidade embrulhando-a em presentes caros e comemorações ruidosas, como quem tenta tapar o sol com uma peneira.

        No fim, entre Marias poetas e, Maneis domingueiros, a vida revelou-se esta maravilhosa loucura: uma comédia onde todos sabiam o guião, mas fingiam sempre que era a primeira vez que entravam em cena.