Eu acordava quase sempre com esse estalido inicial, o
crepitar suave da lenha a ganhar vida. Levantava-me sem fazer barulho para não
quebrar o encanto da casa adormecida. Ia ter com ele. Tocava-lhe de leve no
ombro, num "bom dia" que era mais sentido do que falado, e ocupava o
meu lugar no pequeno banco de madeira que me estava destinado. Sendo o único
neto que lá passava as férias de verão, aquele banco era o meu trono.
Ali ficávamos os dois, lado a lado, unidos por um
silêncio confortável. O ar da cozinha enchia-se com o fumo cinzento e com o
aroma reconfortante do feijão-frade que já fervia lentamente na panela de
ferro.
Lá fora, contudo, a rotina da aldeia já tinha
começado. Através da janela, ouvia-se a rua que fervilhava de vida logo cedo.
Eram passos apressados de vizinhos que iniciavam a jornada e o rodar pesado das
carroças que seguiam a caminho dos chãos para o trabalho agrícola. Esse
movimento vinha acompanhado por uma melodia única: o cantar madrugador dos
pássaros, o burburinho de conversas cruzadas e uma troca constante de
"bons dias" que ecoava pelo empedrado.
A quietude cá dentro só terminava quando a minha avó
entrava na cozinha. Trazia o cabelo branco apanhado e aquele sorriso suave que
parecia iluminar a sala antes do próprio sol. O pequeno-almoço marchava com o
apetite de quem tinha o dia todo pela frente. Com a energia renovada, o meu avô
e eu saíamos finalmente de casa, prontos para responder àqueles cumprimentos,
nos juntarmos ao movimento da rua e descobrir mais um dia maravilhoso.

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