29/10/26

O BANCO JUNTO À LAREIRA

      O silêncio das madrugadas na aldeia tinha um ritmo próprio. Muito antes de o sol romper o horizonte, o meu avô já estava de pé. O seu primeiro ritual era sempre o mesmo: caminhava a passos lentos até à lareira, agachava-se e começava a avivar o lume com paciência. Escolhia as brasas com o rasto da experiência nos dedos e ali ficava, imóvel, perdido em pensamentos que guardava só para ele.

      Eu acordava quase sempre com esse estalido inicial, o crepitar suave da lenha a ganhar vida. Levantava-me sem fazer barulho para não quebrar o encanto da casa adormecida. Ia ter com ele. Tocava-lhe de leve no ombro, num "bom dia" que era mais sentido do que falado, e ocupava o meu lugar no pequeno banco de madeira que me estava destinado. Sendo o único neto que lá passava as férias de verão, aquele banco era o meu trono.

      Ali ficávamos os dois, lado a lado, unidos por um silêncio confortável. O ar da cozinha enchia-se com o fumo cinzento e com o aroma reconfortante do feijão-frade que já fervia lentamente na panela de ferro.

      Lá fora, contudo, a rotina da aldeia já tinha começado. Através da janela, ouvia-se a rua que fervilhava de vida logo cedo. Eram passos apressados de vizinhos que iniciavam a jornada e o rodar pesado das carroças que seguiam a caminho dos chãos para o trabalho agrícola. Esse movimento vinha acompanhado por uma melodia única: o cantar madrugador dos pássaros, o burburinho de conversas cruzadas e uma troca constante de "bons dias" que ecoava pelo empedrado.

      A quietude cá dentro só terminava quando a minha avó entrava na cozinha. Trazia o cabelo branco apanhado e aquele sorriso suave que parecia iluminar a sala antes do próprio sol. O pequeno-almoço marchava com o apetite de quem tinha o dia todo pela frente. Com a energia renovada, o meu avô e eu saíamos finalmente de casa, prontos para responder àqueles cumprimentos, nos juntarmos ao movimento da rua e descobrir mais um dia maravilhoso.

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