Minhas senhoras e meus senhores, ajeitem os óculos de
leitura e sintonizem os corações. Hoje fazemos uma paragem obrigatória no
centro do mundo — ou, pelo menos, no centro da nossa linda Soalheira.
Este é a sítio onde tudo começou. Um romance antigo
escrito com água, mais água, toneladas de suor e lágrimas suficientes para
rivalizar com o caudal do repuxo. Se o trabalho dignifica o homem, a Soalheira
é uma pátria de reis. Nós, os que aqui estamos e os que de longe a choram,
somos todos filhos deste pedaço de chão.
Eis o Largo da Praça, a nossa sala de visitas. Ao
centro, o repuxo dança numa corrente contínua, fugindo ao sabor da mudança do
mundo — quase tão rápido como nós fugimos das melgas no verão. À volta deste
palco aquático, as pedras sobrepostas desafiam a gravidade em casas abraçadas,
com lindas varandas semeadas na frente do casario. São varandas de todas as
alturas e com variados toques artísticos. Diz a lenda que algumas destas
geometrias abstratas dependiam diretamente do nível de urgência do pedreiro ou,
quem sabe, do número de copos que tinha emborcado ao almoço.
Olhar para esta praça é folhear o álbum de memórias da
nossa infância, uma época em que a vida tinha outra banda sonora. Recordo os
passos determinados dos nossos avós e as viagens místicas com o caldeiro na
mão, numa busca incessante pela frescura. Lembro o meu avô Manuel Dias, um
pilar de paciência, e a mítica Loja da senhora Leonor, o hipermercado daquela
era, onde se vendia desde o botão que faltava na camisa até ao conselho que
faltava na vida.
Havia os sapateiros com o cheiro a cabedal, os
correios que traziam notícias de longe e a escola primária, onde a tabuada
entrava na cabeça à força de muito esforço. E, claro, a taberna do senhor
Manuel e da D. Leopoldina, o verdadeiro senado local, onde se resolviam os
problemas do país entre um petisco e um traçado.
Ninguém esquece a coreografia dos risos, nem a
apoteótica saída da missa de domingo — momento alto da semana, onde se limpavam
os pecados lá dentro para se começar a coscuvilhar a vida alheia cá fora. Havia
os passos apressados na madrugada de quem ia ganhar o pão, o bater rítmico dos
cascos dos cavalos e dos burros no empedrado, e as vacas... ah, as vacas!
Criaturas de um zen invejável que bebiam água durante dez minutos seguidos, sem
pestanejar, num transe místico que desafiava as leis da física e da bexiga
animal.
Esse silêncio quase sagrado só era quebrado pela mini
cascata entre as guardas das pedras do repuxo e, ocasionalmente, pelo artista
lá da terra que, com vinho a mais na barriga, tentava afinar um fado
incompreensível. Era uma serenata vadia que terminava sempre num silêncio
suave, tranquilo e ligeiramente ébrio.
Guardamos na alma o perfume das flores nas janelas, o
canto caótico dos pardais, os voos rasantes das andorinhas e os morcegos que,
ao cair da noite, faziam acrobacias aéreas sem radar. Até o brilho de algumas
pedras da calçada, polidas pelos sapatos de gerações, parece ter luz própria.
E aqui estamos nós, os herdeiros disto tudo.
Passageiros do tempo, passando pela vida exatamente como a água passa do
chafariz e corre, sorrateiramente, em direção a um secreto laranjal — para
grande alegria e tentação dos rapazes da terra.
Que mais posso lembrar?
Foi um privilégio supremo nascer aqui,
estrategicamente de costas para a Gardunha e de frente para os vastos campos
que se estendem para lá do nosso entendimento (e da nossa vista já cansada).
Quem não gostaria de fazer parte deste ramalhete composto por amor, alegria,
liberdade e uma pitada de loucura saudável?
Serás sempre a nossa Soalheira. Que o sol nos guie e,
já agora, que a sombra nunca nos falte.