Os sinos da igreja começam a tocar com aquela força abrutalhada, funcionando como o despertador oficial para garantir que ninguém consegue dormir até mais tarde. Lá fora, o cenário é caótico. O vento vai sussurrando piadas de mau gosto ao ouvido das pessoas, enquanto a chuva vai caindo sem dar tréguas, decidida a estragar o penteado de toda a gente.
No meio das poças de água, lá vai o Chico Derrapagem, o clássico atrasado do dia, a correr como se estivesse nas Olimpíadas, a fazer figuras tristes e a rezar para não escorregar no próximo charco. Alheios a este desespero, os lenhadores Quim Brasa e Mano Praça vão fumando o seu cigarro matinal, empurrando o trabalho com a barriga e poluindo o ar antes de se fazerem à estrada, já que o seu caminho os leva à serra da Gardunha.
Entretanto, no centro da aldeia, a vida acontece a passo de caracol. Chega a Dona São para buscar o pão, marchando com uma energia invejável porque nem o temporal a impede de tomar o seu pequeno-almoço. Ao lado, o Mestre Passa Frio já abriu a porta da oficina, bocejando e a olhar para a rua com cara de poucos amigos.
No meio da praça, o chafariz espalha água pelo meio de duas pedras um claro exagero dramático para quem já está a levar com uma tempestade em cima.
Nisto, o Piloto, um cão vadio bem-sabido, chega, olha para aquela miséria de tempo, mede todo o espaço com os olhos e segue o seu caminho. Debaixo de um teto, o gato Fitas exibe os bigodes molhados e uma cara de profundo arrependimento por ter saído da cama. O seu dono, o Zezé Preguiça, que não é parvo nenhum, não vem e continua a dormir, tapado até às orelhas.
A tragédia matinal atinge o seu pico quando o Chico Derrapagem, num sprint desesperado e completamente cego pela chuva, perde o controlo dos travões nas pedras da calçada. Como um autêntico projétil humano, o Chico desliza pela lama e vai esbarrar diretamente contra a Dona São da Coxa, que regressava triunfante com o seu pão.
O impacto é digno de um filme de ação. Com o choque, o pão voa pelos ares e vai aterrar mesmo em cima do focinho do gato Fitas, que aproveita a oferenda divina e foge logo com o pequeno-almoço na boca. A Dona São da Coxa, armada com o seu guarda-chuva pesado, não perde tempo e começa a aviar valentes bengaladas no Chico, que ainda está no chão a tentar perceber onde tem o nariz.
A ver a chinfrineira da janela,
o Mestre Passa Frio solta uma gargalhada tão genuína que até lhe desalinha o
bigode perfeito. Na berma da estrada, o Quim Brasa tira o cigarro da boca, deita
o fumo fora e diz para o companheiro: "Olha lá, Mano... afinal hoje não vamos à serra, com esta chuva ...." O Piloto dá uma última olhadela
ao espetáculo, mija ostensivamente na roda do chafariz e afasta-se com
dignidade. E na praça vazia, enquanto o Chico pede desculpa de joelhos, o Zezé
Preguiça continua a ressonar na cama, e o repuxo... bem, o repuxo continua
orgulhosamente na sua, a lavar o cenário do crime.