07/11/26

MUSICA COUNTRY NA SOALHEIRA

 

      Senhoras, senhores, terráqueos em geral e digníssimos habitantes da mística Soalheira e arredores!

      Preparem os vossos corações (e os vossos ouvidos), porque hoje regressei à Soalheira e trago comigo uma crónica tão inacreditável que até os deuses do country ficariam boquiabertos. Comigo recrutei uma comitiva de elite: o Dirceu, o Amadeu e o Ameixas — três autênticos magos do banjo, capazes de fazer saltar faíscas das cordas e de meter qualquer esqueleto a dançar!

      Estacionámos a nossa caravana nossa bólide estrategicamente perto do cemitério (só para acordar as almas com boas vibrações) e avançámos, destemidos, em direção à Senhora das Necessidades. O plano era infalível: encontrar espécimes humanos para lhes chinfrinar a mioleira, espalhar ritmos alucinantes e semear a loucura do country americano em solo beirão. Mas, mistério dos mistérios… as ruas pareciam saídas de um filme de cow-boys fantasma. Nem uma alma!

      Foi então que o sobrenatural aconteceu. Num canto do santuário, banhada por um feitiço de luz — metade da cabeça à sombra e o resto do corpo a bronzear ao sol —, estava a lendária gata Piruças. Adivinhando o nosso desespero, a Piruças abriu um olho, bocejou e, num português impecável, digno de uma pivô de telejornal e sem ponta de sotaque, revelou o segredo:
      - "Meus caros, o povo foi todo à Web Summit… que este ano, por capricho tecnológico, se realiza em Castelo Branco! Mas acalmem os banjos, que eles já estão a chegar. Está quase na hora de o meu humano me servir o lanche real, e eu não tolero atrasos."

      E não é que a gata era bruxa? Segundos depois, rasgando o horizonte com uma nuvem de purpurina e fumo, surge a camioneta (com lotação reduzida para manter o charme e o distanciamento social). Assim que os pneus travaram, os nossos virtuosos romperam num acorde mágico de banjos. O efeito foi instantâneo: as dores nas pernas da viagem evaporaram-se num sopro de feitiçaria musical!

      A atmosfera explodiu em alegria! O grande Barandas, homem de mil saberes, assumiu o papel de guia turístico e historiador oficial, desvendando os segredos sagrados daquele santuário. Depois, levou os músicos ao topo do coreto para contemplarem a aldeia do ponto mais alto do mundo (ou quase) e, para selar este pacto de amizade, partilhámos um banquete digno de reis: goles de vinho celestial acompanhados por pipocas douradas - as gloriosas sobras da grande viagem à capital de distrito.

      Para animar ainda mais a festa, apareceu o famosíssimo cão Deny, que vive uma vida de lorde em férias repartidas entre o 'jet set' de Lisboa e o ar puro da Soalheira. O Deny ficou tão possuído pelo ritmo do country que começou a rodopiar numa dança frenética e, num prodígio de flexibilidade canina, conseguiu dar uma valente dentada na própria cauda - vingando-se, finalmente, de uma melga gigante que o tinha atacado!

      O pessoal, mesmo com o cansaço a dar cabo deles, redopiou, saltou e valsou até gastar a última gota de energia. Quando o feitiço do baile terminou, alguns estavam tão nas nuvens (e tinham acordado tão cedo) que tiveram de ser levados em braços, como autênticas estrelas de rock num festival de verão.

      O relógio do universo marca agora seis badaladas da tarde. O sol começa a despedir-se com cores de fogo. É hora de estender as nossas mantas voadoras e toalhas no chão, guardar os banjos mágicos nas caixas e deixar o corpo descansar, porque a alma… essa ainda está a dançar na Soalheira!


31/10/26

CRÓNICA HUMORÍSTICA E ROMÂNTICA DA SOALHEIRA

      Hoje vieram comigo dois amigos e vou mostrar-lhes a bela vila da Soalheira. Rapazes vamos, venha de lá o acordeão e o banjo, que a malta cá do sítio até vai perder o pé!

      Mal começamos a andar, dou por mim a tropeçar no ar.
- Cuidado! - grita o Mark. - Quase que batias com o nariz no nada!
Olhamos bem e percebemos o mistério: estamos a caminhar ao lado de uma autêntica carroça invisível. Não se vê um único feixe de madeira, mas ouvimos perfeitamente o chiar das rodas fantasma a ranger nas pedras da calçada e juraria que cheira a feno fresco vindo do além. Sem pensar duas vezes, atiro a minha mochila para o ar. Para espanto do Julian, a mochila fica a flutuar a um metro do chão, perfeitamente apoiada no espaço vazio da carruagem invisível. Se isto não é comodidade turística, não sei o que será!

      Olha eu de pedra em pedra curtindo o lugar onde eu cresci. Olha o chafariz da praça correndo sem pressa e eu, como sempre, vou molhar as mãos, fazer concha e beber - Está sempre boa e fresca. Nisto, enquanto sacudo a água das mãos, os meus olhos cruzam-se com os de uma rapariga de sorriso luminoso que passa do outro lado da praça. O meu coração falha uma batida. Esqueço-me de como se respira, tento fazer um manguito galante de galã de cinema, mas acabo por tropeçar na porcaria da barra invisível da nossa carroça e caio de joelhos num espalhafato monumental. Ela solta uma gargalhada cristalina que ecoa por toda a vila. O romance bateu-me forte na alma, e a comédia bateu-me diretamente nos joelhos.

      - Continuem, amigos, que o repuxo nos espera! - disfarço eu, levantando-me depressa e limpando o pó com uma dignidade que já não tenho.

      É um laguinho com história, e olha, lá está a minha tia Madalena à varanda!
      - Um beijo, tia! Vamos lá, malta, toque lá uma música dedicada à minha tia!

      A malta vem daí e dança comigo à volta do repuxo. Acelerem, agora para o outro lado! Com a animação, o Mark entusiasma-se tanto que tenta dar um passo de dança acrobático, escorrega no lodo do repuxo e quase vai parar dentro da carroça invisível, que solta um rangido que parece uma gargalhada do além.

      Olha, o cão Deny também vem ver o que se passa, a ladrar furiosamente para o vazio, claramente confuso com o cheiro a palha invisível.
      - Então e a dona? E a Madalena?
      - Foram ao supermercado comprar o almoço.
      - Ok!

      A minha tia agradece lá de cima, solta um beijo romântico para o ar que por azar apanha o Julian em cheio na bochecha, e diz adeus. Muda a música e descemos ao largo de Santo António e à capela. O sapateiro está lá, tal como um gigante de pedra. Lá em baixo apanhamos o alcatrão. Venham daí que é mais fácil andar, até porque guiar uma carroça invisível no paralelo exige uma perícia que nós não temos.

      Olha a zona dos cafés! Mas aqui é só pés de chumbo, agarrados às minis, em pose de descanso. Só nos olham de lado, sem perceber como é que as nossas mochilas flutuam sozinhas pelo meio da rua. Para quebrar o gelo e o espanto paranormal, convidam-nos a comer pão da Lardosa com queijo da Soalheira. E aí, meus amigos, nunca dizemos que não.

      A rapariga misteriosa do chafariz aparece novamente, senta-se na mesa do lado e pisca-me o olho enquanto saboreia o queijo. O meu coração volta a acelerar e, no meio do nervosismo, tento dar um gole na minha cerveja, mas acabo por falhar a boca e entornar metade na camisola. O Mark e o Julian desatam à gargalhada e os pés de chumbo do café acompanham o coro.

      Sai mais uma mini para afogar as mágoas do amor e descansamos. Por hoje é tudo, entre brindes, assombrações rurais e paixões fulminantes. Até à vista!

      Agradecimento especial ao Mark, ao Julian e ao fantasma que nos emprestou o veículo.

29/10/26

O BANCO JUNTO À LAREIRA

      O silêncio das madrugadas na aldeia tinha um ritmo próprio. Muito antes de o sol romper o horizonte, o meu avô já estava de pé. O seu primeiro ritual era sempre o mesmo: caminhava a passos lentos até à lareira, agachava-se e começava a avivar o lume com paciência. Escolhia as brasas com o rasto da experiência nos dedos e ali ficava, imóvel, perdido em pensamentos que guardava só para ele.

      Eu acordava quase sempre com esse estalido inicial, o crepitar suave da lenha a ganhar vida. Levantava-me sem fazer barulho para não quebrar o encanto da casa adormecida. Ia ter com ele. Tocava-lhe de leve no ombro, num "bom dia" que era mais sentido do que falado, e ocupava o meu lugar no pequeno banco de madeira que me estava destinado. Sendo o único neto que lá passava as férias de verão, aquele banco era o meu trono.

      Ali ficávamos os dois, lado a lado, unidos por um silêncio confortável. O ar da cozinha enchia-se com o fumo cinzento e com o aroma reconfortante do feijão-frade que já fervia lentamente na panela de ferro.

      Lá fora, contudo, a rotina da aldeia já tinha começado. Através da janela, ouvia-se a rua que fervilhava de vida logo cedo. Eram passos apressados de vizinhos que iniciavam a jornada e o rodar pesado das carroças que seguiam a caminho dos chãos para o trabalho agrícola. Esse movimento vinha acompanhado por uma melodia única: o cantar madrugador dos pássaros, o burburinho de conversas cruzadas e uma troca constante de "bons dias" que ecoava pelo empedrado.

      A quietude cá dentro só terminava quando a minha avó entrava na cozinha. Trazia o cabelo branco apanhado e aquele sorriso suave que parecia iluminar a sala antes do próprio sol. O pequeno-almoço marchava com o apetite de quem tinha o dia todo pela frente. Com a energia renovada, o meu avô e eu saíamos finalmente de casa, prontos para responder àqueles cumprimentos, nos juntarmos ao movimento da rua e descobrir mais um dia maravilhoso.

27/10/26

RUA ARANTES DE OLIVEIRA, HOJE É UMA RETA MAS … Oh Salheira!

       Nos finais dos anos 60, a minha aldeia parecia uma agência de viagens improvisada: metade das pessoas estava a fazer as malas para ir para França ou para Lisboa e a outra metade ficava por cá a tentar não derreter no verão mais soalheiro do centro de Portugal. Eu tinha dez anos e era o rei da rua Nova. Voava pelas vielas com o meu arco de metal, jogava à bola atrás da igreja e gozava de uma liberdade que hoje em dia daria um ataque cardíaco a qualquer pai.

      Ao fim da tarde, quando o calor dava tréguas, a malta reunia-se para subir ao Bairro Novo. O caminho pela Rua Arantes de Oliveira era um ziguezague de curvas e mais curvas e ainda por cima estreitas, o cenário perfeito para autênticos ralis clandestinos de carroças, organizados à base do "vê lá se não te matas". O caminho era um mau empedrado e eu sentava-me numas rochas junto ao Pomar - que, entretanto, desapareceram misteriosamente, provavelmente levados por algum vizinho, ou alguma dinamite - e ficava ali, feliz da vida, só a ver o movimento.

      Quando o grupo saía da zona dos cafés, o ponto de encontro final era o largo da capela. Ali treinávamos como se adivinhássemos que estava para chegar o Ronaldo e tentávamos proteger-nos do sol debaixo de umas árvores cuja sombra era tão magrinha e desnutrida que mal dava para tapar um careca. Mas quem é que queria saber? O tempo passava devagarinho, a camaradagem era da boa e viver com os amigos sabia incrivelmente bem.

22/10/26

UMA TARDE NO CAFÉ DO ZÉ MARIO

(Refrão)

Ó Tarde de Verão, ó Sol que não tem fim!
O café do Zé Mário espera por mim!
Esquece lá a missa, já passou o almoço,
Às três da tarde eu corro o que posso!
Bate a carta na mesa, rasga o peito e a voz,
Que o calor de Agosto traz os "franceses" a nós!

1
A mesa da entrada, bem colada ao balcão,
Quatro jogam à Sueca de trunfo na mão!
Entre jogadas banais e pontos discutidos,
São moscas teimosas e abraços partidos.
Estica-se a mão no meio da jogada:
Vem Laranjina C, Trina e cerveja fresca (ou morna) puxada!
Vêm tremoços à pressa, amendoins a saltar,
E a cerveja na garrafa para quem quiser arriscar!

(Refrão)


2
Olha a televisão! Se o cinema chamar,
Nas cadeiras de Sumol nos vamos sentar!
Ruído sereno de um fim de tarde a cair,
Resta-nos a amizade e a leveza de sorrir.
Mas Agosto é curto, o vento frio vai chegar,
E o vazio do Outono a Soalheira vai abraçar...

(Refrão)

3
Meus amigos da vida, guardem a saudade,
Que eu trago a promessa e a eletricidade!
A máquina do tempo já a estou a criar,
Para ao passado da Soalheira podermos regressar!
Preparem os copos, o brinde vai ser agora,
À terra que nos criou e que o peito chora!
Viva a Soalheira!

21/10/26

MAR IMENSO, ATÉ QUANDO?

 

      Cheguei à beira-mar, olhei para aquela imensidão de frente e, em vez de focar no nevoeiro lá ao fundo que esconde o horizonte, só consegui pensar: até quando é que este mar maravilhoso vai continuar aqui à nossa disposição? Espero que para sempre, porque uma praia sem água para a malta dar um mergulho era uma autêntica tragédia grega! E quando é que o azul vai virar vermelho? Bem, idealmente só quando o sol decidir dar aquele espetáculo num pôr do sol digno de um postal do Instagram, de preferência acompanhado por uma bebida bem fresca na mão!

      Sim, eu sei que tudo na vida se reorganiza e se transforma. Mas em vez de ondas dramáticas cheias de mistério, que venham novas ondas, sim, mas de alegria, gargalhadas, saúde e muita música boa! Se um dia o mundo der uma reviravolta e a verdade escondida vier ao de cima — tal como o azeite que nunca fica no fundo do prato (e que nós tanto gostamos de ensopar no pão!) — que seja para celebrar!

      Que os dias sejam sempre claros, que as nuvens desapareçam e que a verdade nos traga apenas motivos para sorrir. Se o futuro for assim tão transparente e radiante, meus amigos, vai ser um dia absolutamente feliz e de festa rija!

15/10/26

OS MELHORES DIAS

 


(Ou: como desperdiçar poesia porque o GPS não apanha sinal)

O tempo passava devagar demais. Mas devagar ao nível de ver uma corrida de caracóis em câmara lenta. Era uma serenidade tão perfeita que, honestamente, já me estava a dar cabo dos nervos. Uma paz que crescia comigo, apesar de eu nunca ter pedido este retiro espiritual ao universo. Mas pronto, lá vinha aquela cadência diária, tipo música de elevador que não dá para desligar.

     Acordava com uma certeza absoluta: lá fora, tudo rimava. O que é poeticamente bonito, mas logisticamente um inferno, porque tentar comprar pão em verso logo às oito da manhã devia ser crime. Os meus passos iam marcar o ritmo da incerteza do que se passava muito longe. Basicamente, eu não fazia ideia do que andava a fazer, mas fingia que a minha desorientação era "charme e mistério".

    Não havia desculpas para dar, nem viagens para evitar. Era decidir e pronto. E como tudo era tão breve, a única vantagem real é que o desespero logístico foi cancelado:

- Sem malas para fazer: O que é ótimo, porque eu esqueço-me sempre das escovas de dentes.

- Sem despedidas para chorar: poupou-se em lenços e em figuras tristes no apeadeiro.

    Havia meses em que nada chocava. Nem os carros, nem as opiniões, nem duas fatias de torrada na minha boca. Nós simplesmente íamos deixando-nos ir, com o carisma de duas algas à deriva. E o futuro? O futuro não tinha razão para estar longe. O único culpado de eu estar perdido era eu mesmo, que consegui ser o único gajo errante (leia-se: sem sentido de orientação) naquele local do mundo.

Quando tento desenhar os passos onde aprendi a andar, o que é que encontro? Vento, luar e, muito provavelmente, humidade que me vai dar cabo das costas amanhã. Estico a passada para parecer confiante, falho um degrau e perco-me. No final, fico a olhar para o céu com cara de parvo, a achar que afinal não fui capaz de amar (ou que só preciso de comer qualquer coisa).

Ficam para a história: as noites em que não mudei de pose na pista de dança por medo de rasgar as calças.

MUSICA COUNTRY NA SOALHEIRA

        Senhoras, senhores, terráqueos em geral e digníssimos habitantes da mística Soalheira e arredores!       Preparem os vossos cora...