31/10/26

CRÓNICA HUMORÍSTICA E ROMÂNTICA DA SOALHEIRA

      Hoje vieram comigo dois amigos e vou mostrar-lhes a bela vila da Soalheira. Rapazes vamos, venha de lá o acordeão e o banjo, que a malta cá do sítio até vai perder o pé!

      Mal começamos a andar, dou por mim a tropeçar no ar.
- Cuidado! - grita o Mark. - Quase que batias com o nariz no nada!
Olhamos bem e percebemos o mistério: estamos a caminhar ao lado de uma autêntica carroça invisível. Não se vê um único feixe de madeira, mas ouvimos perfeitamente o chiar das rodas fantasma a ranger nas pedras da calçada e juraria que cheira a feno fresco vindo do além. Sem pensar duas vezes, atiro a minha mochila para o ar. Para espanto do Julian, a mochila fica a flutuar a um metro do chão, perfeitamente apoiada no espaço vazio da carruagem invisível. Se isto não é comodidade turística, não sei o que será!

      Olha eu de pedra em pedra curtindo o lugar onde eu cresci. Olha o chafariz da praça correndo sem pressa e eu, como sempre, vou molhar as mãos, fazer concha e beber - Está sempre boa e fresca. Nisto, enquanto sacudo a água das mãos, os meus olhos cruzam-se com os de uma rapariga de sorriso luminoso que passa do outro lado da praça. O meu coração falha uma batida. Esqueço-me de como se respira, tento fazer um manguito galante de galã de cinema, mas acabo por tropeçar na porcaria da barra invisível da nossa carroça e caio de joelhos num espalhafato monumental. Ela solta uma gargalhada cristalina que ecoa por toda a vila. O romance bateu-me forte na alma, e a comédia bateu-me diretamente nos joelhos.

      - Continuem, amigos, que o repuxo nos espera! - disfarço eu, levantando-me depressa e limpando o pó com uma dignidade que já não tenho.

      É um laguinho com história, e olha, lá está a minha tia Madalena à varanda!
      - Um beijo, tia! Vamos lá, malta, toque lá uma música dedicada à minha tia!

      A malta vem daí e dança comigo à volta do repuxo. Acelerem, agora para o outro lado! Com a animação, o Mark entusiasma-se tanto que tenta dar um passo de dança acrobático, escorrega no lodo do repuxo e quase vai parar dentro da carroça invisível, que solta um rangido que parece uma gargalhada do além.

      Olha, o cão Deny também vem ver o que se passa, a ladrar furiosamente para o vazio, claramente confuso com o cheiro a palha invisível.
      - Então e a dona? E a Madalena?
      - Foram ao supermercado comprar o almoço.
      - Ok!

      A minha tia agradece lá de cima, solta um beijo romântico para o ar que por azar apanha o Julian em cheio na bochecha, e diz adeus. Muda a música e descemos ao lago de Santo António e à capela. O sapateiro está lá, tal como um gigante de pedra. Lá em baixo apanhamos o alcatrão. Venham daí que é mais fácil andar, até porque guiar uma carroça invisível no paralelo exige uma perícia que nós não temos.

      Olha a zona dos cafés! Mas aqui é só pés de chumbo, agarrados às minis, em pose de descanso. Só nos olham de lado, sem perceber como é que as nossas mochilas flutuam sozinhas pelo meio da rua. Para quebrar o gelo e o espanto paranormal, convidam-nos a comer pão da Lardosa com queijo da Soalheira. E aí, meus amigos, nunca dizemos que não.

      A rapariga misteriosa do chafariz aparece novamente, senta-se na mesa do lado e pisca-me o olho enquanto saboreia o queijo. O meu coração volta a acelerar e, no meio do nervosismo, tento dar um gole na minha cerveja, mas acabo por falhar a boca e entornar metade na camisola. O Mark e o Julian desatam à gargalhada e os pés de chumbo do café acompanham o coro.

      Sai mais uma mini para afogar as mágoas do amor e descansamos. Por hoje é tudo, entre brindes, assombrações rurais e paixões fulminantes. Até à vista!

      Agradecimento especial ao Mark, ao Julian e ao fantasma que nos emprestou o veículo.

29/10/26

O BANCO JUNTO À LAREIRA

      O silêncio das madrugadas na aldeia tinha um ritmo próprio. Muito antes de o sol romper o horizonte, o meu avô já estava de pé. O seu primeiro ritual era sempre o mesmo: caminhava a passos lentos até à lareira, agachava-se e começava a avivar o lume com paciência. Escolhia as brasas com o rasto da experiência nos dedos e ali ficava, imóvel, perdido em pensamentos que guardava só para ele.

      Eu acordava quase sempre com esse estalido inicial, o crepitar suave da lenha a ganhar vida. Levantava-me sem fazer barulho para não quebrar o encanto da casa adormecida. Ia ter com ele. Tocava-lhe de leve no ombro, num "bom dia" que era mais sentido do que falado, e ocupava o meu lugar no pequeno banco de madeira que me estava destinado. Sendo o único neto que lá passava as férias de verão, aquele banco era o meu trono.

      Ali ficávamos os dois, lado a lado, unidos por um silêncio confortável. O ar da cozinha enchia-se com o fumo cinzento e com o aroma reconfortante do feijão-frade que já fervia lentamente na panela de ferro.

      Lá fora, contudo, a rotina da aldeia já tinha começado. Através da janela, ouvia-se a rua que fervilhava de vida logo cedo. Eram passos apressados de vizinhos que iniciavam a jornada e o rodar pesado das carroças que seguiam a caminho dos chãos para o trabalho agrícola. Esse movimento vinha acompanhado por uma melodia única: o cantar madrugador dos pássaros, o burburinho de conversas cruzadas e uma troca constante de "bons dias" que ecoava pelo empedrado.

      A quietude cá dentro só terminava quando a minha avó entrava na cozinha. Trazia o cabelo branco apanhado e aquele sorriso suave que parecia iluminar a sala antes do próprio sol. O pequeno-almoço marchava com o apetite de quem tinha o dia todo pela frente. Com a energia renovada, o meu avô e eu saíamos finalmente de casa, prontos para responder àqueles cumprimentos, nos juntarmos ao movimento da rua e descobrir mais um dia maravilhoso.

27/10/26

RUA ARANTES DE OLIVEIRA, HOJE É UMA RETA MAS … Oh Salheira!

       Nos finais dos anos 60, a minha aldeia parecia uma agência de viagens improvisada: metade das pessoas estava a fazer as malas para ir para França ou para Lisboa e a outra metade ficava por cá a tentar não derreter no verão mais soalheiro do centro de Portugal. Eu tinha dez anos e era o rei da rua Nova. Voava pelas vielas com o meu arco de metal, jogava à bola atrás da igreja e gozava de uma liberdade que hoje em dia daria um ataque cardíaco a qualquer pai.

      Ao fim da tarde, quando o calor dava tréguas, a malta reunia-se para subir ao Bairro Novo. O caminho pela Rua Arantes de Oliveira era um ziguezague de curvas e mais curvas e ainda por cima estreitas, o cenário perfeito para autênticos ralis clandestinos de carroças, organizados à base do "vê lá se não te matas". O caminho era um mau empedrado e eu sentava-me numas rochas junto ao Pomar - que, entretanto, desapareceram misteriosamente, provavelmente levados por algum vizinho, ou alguma dinamite - e ficava ali, feliz da vida, só a ver o movimento.

      Quando o grupo saía da zona dos cafés, o ponto de encontro final era o largo da capela. Ali treinávamos como se adivinhássemos que estava para chegar o Ronaldo e tentávamos proteger-nos do sol debaixo de umas árvores cuja sombra era tão magrinha e desnutrida que mal dava para tapar um careca. Mas quem é que queria saber? O tempo passava devagarinho, a camaradagem era da boa e viver com os amigos sabia incrivelmente bem.

22/10/26

UMA TARDE NO CAFÉ DO ZÉ MARIO

(Refrão)

Ó Tarde de Verão, ó Sol que não tem fim!
O café do Zé Mário espera por mim!
Esquece lá a missa, já passou o almoço,
Às três da tarde eu corro o que posso!
Bate a carta na mesa, rasga o peito e a voz,
Que o calor de Agosto traz os "franceses" a nós!

1
A mesa da entrada, bem colada ao balcão,
Quatro jogam à Sueca de trunfo na mão!
Entre jogadas banais e pontos discutidos,
São moscas teimosas e abraços partidos.
Estica-se a mão no meio da jogada:
Vem Laranjina C, Trina e cerveja fresca (ou morna) puxada!
Vêm tremoços à pressa, amendoins a saltar,
E a cerveja na garrafa para quem quiser arriscar!

(Refrão)


2
Olha a televisão! Se o cinema chamar,
Nas cadeiras de Sumol nos vamos sentar!
Ruído sereno de um fim de tarde a cair,
Resta-nos a amizade e a leveza de sorrir.
Mas Agosto é curto, o vento frio vai chegar,
E o vazio do Outono a Soalheira vai abraçar...

(Refrão)

3
Meus amigos da vida, guardem a saudade,
Que eu trago a promessa e a eletricidade!
A máquina do tempo já a estou a criar,
Para ao passado da Soalheira podermos regressar!
Preparem os copos, o brinde vai ser agora,
À terra que nos criou e que o peito chora!
Viva a Soalheira!

21/10/26

MAR IMENSO, ATÉ QUANDO?

 

      Cheguei à beira-mar, olhei para aquela imensidão de frente e, em vez de focar no nevoeiro lá ao fundo que esconde o horizonte, só consegui pensar: até quando é que este mar maravilhoso vai continuar aqui à nossa disposição? Espero que para sempre, porque uma praia sem água para a malta dar um mergulho era uma autêntica tragédia grega! E quando é que o azul vai virar vermelho? Bem, idealmente só quando o sol decidir dar aquele espetáculo num pôr do sol digno de um postal do Instagram, de preferência acompanhado por uma bebida bem fresca na mão!

      Sim, eu sei que tudo na vida se reorganiza e se transforma. Mas em vez de ondas dramáticas cheias de mistério, que venham novas ondas, sim, mas de alegria, gargalhadas, saúde e muita música boa! Se um dia o mundo der uma reviravolta e a verdade escondida vier ao de cima — tal como o azeite que nunca fica no fundo do prato (e que nós tanto gostamos de ensopar no pão!) — que seja para celebrar!

      Que os dias sejam sempre claros, que as nuvens desapareçam e que a verdade nos traga apenas motivos para sorrir. Se o futuro for assim tão transparente e radiante, meus amigos, vai ser um dia absolutamente feliz e de festa rija!

15/10/26

OS MELHORES DIAS

 


(Ou: como desperdiçar poesia porque o GPS não apanha sinal)

O tempo passava devagar demais. Mas devagar ao nível de ver uma corrida de caracóis em câmara lenta. Era uma serenidade tão perfeita que, honestamente, já me estava a dar cabo dos nervos. Uma paz que crescia comigo, apesar de eu nunca ter pedido este retiro espiritual ao universo. Mas pronto, lá vinha aquela cadência diária, tipo música de elevador que não dá para desligar.

     Acordava com uma certeza absoluta: lá fora, tudo rimava. O que é poeticamente bonito, mas logisticamente um inferno, porque tentar comprar pão em verso logo às oito da manhã devia ser crime. Os meus passos iam marcar o ritmo da incerteza do que se passava muito longe. Basicamente, eu não fazia ideia do que andava a fazer, mas fingia que a minha desorientação era "charme e mistério".

    Não havia desculpas para dar, nem viagens para evitar. Era decidir e pronto. E como tudo era tão breve, a única vantagem real é que o desespero logístico foi cancelado:

- Sem malas para fazer: O que é ótimo, porque eu esqueço-me sempre das escovas de dentes.

- Sem despedidas para chorar: poupou-se em lenços e em figuras tristes no apeadeiro.

    Havia meses em que nada chocava. Nem os carros, nem as opiniões, nem duas fatias de torrada na minha boca. Nós simplesmente íamos deixando-nos ir, com o carisma de duas algas à deriva. E o futuro? O futuro não tinha razão para estar longe. O único culpado de eu estar perdido era eu mesmo, que consegui ser o único gajo errante (leia-se: sem sentido de orientação) naquele local do mundo.

Quando tento desenhar os passos onde aprendi a andar, o que é que encontro? Vento, luar e, muito provavelmente, humidade que me vai dar cabo das costas amanhã. Estico a passada para parecer confiante, falho um degrau e perco-me. No final, fico a olhar para o céu com cara de parvo, a achar que afinal não fui capaz de amar (ou que só preciso de comer qualquer coisa).

Ficam para a história: as noites em que não mudei de pose na pista de dança por medo de rasgar as calças.

10/10/26

A TAPADINHA DOS MEUS AVÓS

 

      A meio da tarde de um dia de agosto, o calor na Beira não pede licença; impõe-se. Foi exatamente sob esse calorão que decidi fazer o caminho de sempre para visitar os meus avós paternos na Tapadinha. Aquilo não é apenas um lugar no mapa; é um vale encantado. Mas desenganem-se os que procuram modernices de fadas ou duendes por ali. Nunca se viu tal bicho. O verdadeiro encanto dali é outro, mais antigo e feito de pedra. Lá no poente, austera e milenar, ergue-se a Serra da Gardunha. É ela a patroa do sítio, gerindo com pulso de ferro o destino de cada oliveira, o temperamento das trovoadas e o rumo do vento.

      Quando me aproximei da casa, o cenário parecia saído de uma pintura suspensa no tempo. Não se via uma alma viva no lugar e os únicos que pareciam ter energia eram os ramos das árvores, que dançavam uma valsa agitada ao sabor da brisa serrana.

      Subi ao cabeço e sentei-me. Diante de mim, o vale abria-se como um anfiteatro de terras aráveis no final do verão. Para quebrar o silêncio do mundo, franzi os lábios e soltei um assobio longo, ritmado. O vale, generoso, não me deixou a cantar sozinho: devolveu-me em stereo a melodia com uma nitidez perfeita. Ali fiquei uns minutos, num dueto afinado entre mim, o vento no rosto e os quatro cantos do lugar.

- Pensava que era o teu avô! — a voz terna da minha avó quebrou o feitiço do assobio. Tinha chegado de mansinho, com o avental limpo e o olhar doce e brilhante. - Tens mesmo a quem sair…. Muito afinado e sem perder uma única nota musical!

Sorri, levantando-me para lhe dar um beijo que sabia a carinho guardado.
- Olá, avó! Como vai a vida por aqui?
- Tudo bem, meu filho. Anda para dentro. Vamos provar o pão e o queijo, que o teu padrinho já não tarda aí.

      Entrar naquela casa é acionar um mecanismo onde o relógio faz greve. O ritual era o de sempre, sagrado e imutável. A mesa de madeira corria para se encostar à parede protetora. Por cima dela, colada na parede, estendiam-se folhas de jornal amareladas pelo tempo. O mais curioso é que, ao passarmos os olhos pelos títulos antigos, percebia-se que há notícias que são sempre atuais; o mundo lá fora roda, muda de protagonistas, mas os dramas e as linhas mantêm-se iguais. Já o pão e o queijo da minha avó, esses não mudam: continuam a ser o melhor banquete que a terra tem para oferecer.

      Entretanto, a porta rangeu e o meu avô entrou, trazendo com ele o cheiro a campo e a sabedoria de quem conhece cada palmo de terra. Sentámo-nos os três. Ali, as folhas de jornal perderam o interesse. Falámos do milho, que este ano pedia atenção; da força da água da ribeira; e daquela nascente milagrosa que, por mais que o verão castigasse, teimava em nunca secar.

- E as maçãs, avô? - perguntei, sabendo a resposta.
- Estão lá no poço, na sombra boa - respondeu ele, com um meio sorriso no canto da boca. - A boiar na água fresca, à tua espera.

      O poço do meu avô sempre foi o melhor frigorífico do mundo. Era único, cavado no arenito consolidado, brilhava com a luz do sol e a água era a mais cristalina do mundo. Aquelas maçãs, que caiam diretamente da macieira sob o sol impiedoso de agosto, tinham o sabor exato da infância.

      Foram momentos puros de partilha, daqueles em que o amor não precisa de grandes discursos para se fazer notar; basta o barulho do queijo a ser cortado e o som das palavras mansas dos meus queridos avós.

      Aos poucos, a Gardunha começou a estender a sua sombra cinzenta sobre o vale. O crepúsculo de agosto trazia uma aragem fresca e a certeza de que o dia chegava ao fim. Despedi-me com os beijos demorados do costume e com o coração visivelmente mais leve do que quando tinha chegado.

      Enquanto subia o caminho de regresso à Soalheira, olhei para trás uma última vez. Lá em cima, no cume idealizado da serra, imaginei o galo da Gardunha a dar o seu boa-noite ao vale, vigiando a Tapadinha e garantindo que, por ali, as coisas preciosas continuam a salvo do tempo.

CRÓNICA HUMORÍSTICA E ROMÂNTICA DA SOALHEIRA

      Hoje vieram comigo dois amigos e vou mostrar-lhes a bela vila da Soalheira. Rapazes vamos, venha de lá o acordeão e o banjo, que a m...