(Ou: como desperdiçar poesia porque o GPS não apanha sinal)
O tempo
passava devagar demais. Mas devagar ao nível de ver uma corrida de caracóis em
câmara lenta. Era uma serenidade tão perfeita que, honestamente, já me estava a
dar cabo dos nervos. Uma paz que crescia comigo, apesar de eu nunca ter pedido
este retiro espiritual ao universo. Mas pronto, lá vinha aquela cadência diária,
tipo música de elevador que não dá para desligar.
Acordava com
uma certeza absoluta: lá fora, tudo rimava. O que é poeticamente bonito, mas
logisticamente um inferno, porque tentar comprar pão em verso logo às oito da
manhã devia ser crime. Os meus passos iam marcar o ritmo da incerteza do que se
passava muito longe. Basicamente, eu não fazia ideia do que andava a fazer, mas
fingia que a minha desorientação era "charme e mistério".
Não havia
desculpas para dar, nem viagens para evitar. Era decidir e pronto. E como tudo
era tão breve, a única vantagem real é que o desespero logístico foi cancelado:
- Sem malas para fazer: O que é ótimo, porque eu esqueço-me sempre das escovas de dentes.
- Sem despedidas para chorar: poupou-se em lenços e em figuras tristes no apeadeiro.
Havia meses
em que nada chocava. Nem os carros, nem as opiniões, nem duas fatias de torrada
na minha boca. Nós simplesmente íamos deixando-nos ir, com o carisma de duas
algas à deriva. E o futuro? O futuro não tinha razão para estar longe. O único
culpado de eu estar perdido era eu mesmo, que consegui ser o único gajo errante
(leia-se: sem sentido de orientação) naquele local do mundo.
Quando tento desenhar os passos onde
aprendi a andar, o que é que encontro? Vento, luar e, muito provavelmente,
humidade que me vai dar cabo das costas amanhã. Estico a passada para parecer
confiante, falho um degrau e perco-me. No final, fico a olhar para o céu com
cara de parvo, a achar que afinal não fui capaz de amar (ou que só preciso de
comer qualquer coisa).
Ficam para a
história: as noites em que não mudei de
pose na pista de dança por medo de rasgar as calças.


