10/08/26

CRÓNICA DE UMA SOALHEIRA CHEIA DE SOL

 

     Minhas senhoras e meus senhores, ajeitem os óculos de leitura e sintonizem os corações. Hoje fazemos uma paragem obrigatória no centro do mundo — ou, pelo menos, no centro da nossa linda Soalheira.

     Este é a sítio onde tudo começou. Um romance antigo escrito com água, mais água, toneladas de suor e lágrimas suficientes para rivalizar com o caudal do repuxo. Se o trabalho dignifica o homem, a Soalheira é uma pátria de reis. Nós, os que aqui estamos e os que de longe a choram, somos todos filhos deste pedaço de chão.

     Eis o Largo da Praça, a nossa sala de visitas. Ao centro, o repuxo dança numa corrente contínua, fugindo ao sabor da mudança do mundo — quase tão rápido como nós fugimos das melgas no verão. À volta deste palco aquático, as pedras sobrepostas desafiam a gravidade em casas abraçadas, com lindas varandas semeadas na frente do casario. São varandas de todas as alturas e com variados toques artísticos. Diz a lenda que algumas destas geometrias abstratas dependiam diretamente do nível de urgência do pedreiro ou, quem sabe, do número de copos que tinha emborcado ao almoço.

     Olhar para esta praça é folhear o álbum de memórias da nossa infância, uma época em que a vida tinha outra banda sonora. Recordo os passos determinados dos nossos avós e as viagens místicas com o caldeiro na mão, numa busca incessante pela frescura. Lembro o meu avô Manuel Dias, um pilar de paciência, e a mítica Loja da senhora Leonor, o hipermercado daquela era, onde se vendia desde o botão que faltava na camisa até ao conselho que faltava na vida.

     Havia os sapateiros com o cheiro a cabedal, os correios que traziam notícias de longe e a escola primária, onde a tabuada entrava na cabeça à força de muito esforço. E, claro, a taberna do senhor Manuel e da D. Leopoldina, o verdadeiro senado local, onde se resolviam os problemas do país entre um petisco e um traçado.

     Ninguém esquece a coreografia dos risos, nem a apoteótica saída da missa de domingo — momento alto da semana, onde se limpavam os pecados lá dentro para se começar a coscuvilhar a vida alheia cá fora. Havia os passos apressados na madrugada de quem ia ganhar o pão, o bater rítmico dos cascos dos cavalos e dos burros no empedrado, e as vacas... ah, as vacas! Criaturas de um zen invejável que bebiam água durante dez minutos seguidos, sem pestanejar, num transe místico que desafiava as leis da física e da bexiga animal.

   Esse silêncio quase sagrado só era quebrado pela mini cascata entre as guardas das pedras do repuxo e, ocasionalmente, pelo artista lá da terra que, com vinho a mais na barriga, tentava afinar um fado incompreensível. Era uma serenata vadia que terminava sempre num silêncio suave, tranquilo e ligeiramente ébrio.

     Guardamos na alma o perfume das flores nas janelas, o canto caótico dos pardais, os voos rasantes das andorinhas e os morcegos que, ao cair da noite, faziam acrobacias aéreas sem radar. Até o brilho de algumas pedras da calçada, polidas pelos sapatos de gerações, parece ter luz própria.

     E aqui estamos nós, os herdeiros disto tudo. Passageiros do tempo, passando pela vida exatamente como a água passa do chafariz e corre, sorrateiramente, em direção a um secreto laranjal — para grande alegria e tentação dos rapazes da terra.

     Que mais posso lembrar?

     Foi um privilégio supremo nascer aqui, estrategicamente de costas para a Gardunha e de frente para os vastos campos que se estendem para lá do nosso entendimento (e da nossa vista já cansada). Quem não gostaria de fazer parte deste ramalhete composto por amor, alegria, liberdade e uma pitada de loucura saudável?

     Serás sempre a nossa Soalheira. Que o sol nos guie e, já agora, que a sombra nunca nos falte.

 

29/07/26

OS HÓSPEDES INCONVENIENTES

Imagem da Net

    O jantar acabou e a paz reinava. De repente, a porta abriu-se. Era o Juvenal, o desconvidado inconveniente, de pijama e sorriso amarelo, acompanhado pelo seu felino, o gato Sinatra. Sem pedir licença, os dois invadiram a cozinha. "Viemos ajudar!", exclamou Juvenal, ligando a torneira para o caudal máximo. Enquanto o homem quebrava duas taças de cristal, o gato saltava para a bancada, lambendo os pratos sujos. Juvenal guardou tudo engordurado no armário. Sorriu orgulhoso e despediu-se, deixando um rastro de pingos sem cor e caos total.

        No meio daquela confusão na cozinha, o anfitrião recuou sem ver e pisou o rabo do gato Sinatra. O felino soltou um miado estridente e aterrador. Com os olhos em chamas, o bicho fulminou todos com um olhar mortal, levou a pata aos olhos e ... saltando enfurecido para cima da mesa. Derrubou as garrafas de água, arranhou as cortinas e destruiu o resto do jantar. Juvenal apenas sorriu, pegou no gato e saiu, deixando os donos da casa em pânico e ruínas.

     Minutos depois, a porta rangeu suavemente. Para espanto de todos, o gato Sinatra voltou atrás, caminhando com uma elegância surpreendente sobre os escombros. Sentou-se direito, limpou a pata com desdém e, com um miado que quase parecia uma fala humana, pediu desculpas pela atitude ridícula do seu dono. Os anfitriões ficaram petrificados, sem saber se limpavam o vinho ou se respondiam ao felino diplomático, que logo se retirou com toda a sua dignidade.

16/07/26

FUI ABRAÇADO POR UM URSO

Imagem da net

Eu vinha vindo bem distraído,

Vi um monstro na sala e caí para trás,

Dei um grito tão feio e tremido,

Que achei que não ia respirar jamais!


O bicho era enorme, peludo e gordo,

Me deu um abraço que quase me esmaga,

Achei que o meu coração ia a bordo,

Ou que era o fim desta minha saga.


Não tinha garras, nem dente, nem bofe,

O monstro feroz que me deu o susto,

Era um urso gigante de pelúcia soft,

Comprado na loja por um alto custo.


Depois do susto, caí na risada,

Apertei o bicho com todo o carinho,

Levei uma surra de fofura armada,

E agora durmo com ele quentinho.


11/06/26

A CASA DOS BARREIROS

O telhado velhinho
Já estava a pingar,
O grande Zé Justo
O veio mudar. 

Pintaram-se as paredes,
Ficou um primor,
A obra do Justo
Tem muito valor.

 Na Casa dos Barreiros,
 O teto mudou,
 O Zé trabalhou bem,
 A chuva acabou.

Acabou-se a água
A cair no chão,
O Zé fez da casa
Um bom casarão.

A casa está nova 
Da base ao topo, 
Ao mestre Zé Justo 
Paguemos um copo.

06/06/26

MANHÃ DE PRIMAVERA

Sentado no degrau da porta,
Canto e rio sem pressa ou fim,
A paz brilha e conforta,
Com o sol só para mim.

Vem vento fresco da serra
Abraçar este dia de amor,
Saboreio o melhor da terra:
Passas doces cheias de calor.

Piso este granito puro,
Sinto a vida a pulsar,
Agua a correr a meus pés,
A caminho de outro lugar.

Levanto-me e radiante,
Sacudo moscas ao burro,
Giro e brinco num instante,
Num gesto livre e puro.

Dou-lhe um pouco de pão,
Com paciência que ninguém tem,
Enquanto a carroça espera
E o sussurro do repuxo vem.



23/01/25

O CHAFARIZ DA PRAÇA

 


A água gelada, o vento a brincar com o fio de água e o brilho dos grãos de granito são 3 lembranças que andam sempre comigo. Sempre que vou à vila minha aldeia não consigo passar sem provar a água que me deu vida no início da minha vida.


28/12/24

DO REPUXO AO LAVARINTO



O repuxo tem um nome maravilhoso, é apenas repuxo, mas não repuxa nada. Recolhe água do chafariz, aproveita o desnível e oferece a água a quem passa e a outras pessoas. Noutros tempos era o centro da aldeia. As lojas de muitas profissões circundavam o belo lago circular e o repuxo dava água a todos os animais que por ali passavam. Os burros com as suas carroças, os cães e gatos que viviam na mais bela liberdade e o pequeno lago também era habitado por peixes de tamanhos variáveis. Gostava de ficar ali a perceber como aquela máquina funcionava e era junto dele que comia o pão  com queijo da aldeia. Foi ali que levei o primeiro puxão de orelhas e pela primeira vez vi gelo. Nas manhãs de primavera misturavam-se, o ruído da água a correr com as andorinhas que por ali passavam para beber água. Os idosos aproveitavam para usar o precioso líquido para lavar as mágoas e sacudir as moscas.

O lavarinto foi construído com um objetivo muito nobre: ajudar as donas de casa do sítio a lavar a roupa. Esta água não se cruzava com a da fonte anterior. Chegava ali límpida e tranquila. Poucas pessoas vi ali lavarem roupa. O que era normal era ver tudo verde com plantas que não havia noutro lado. A minha mãe preferia ir mais longe ... nunca lá lavou.


HOJE E SEMPRE, ARLINDO DE CARVALHO