29/07/26

OS HÓSPEDES INCONVENIENTES

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    O jantar acabou e a paz reinava. De repente, a porta abriu-se. Era o Juvenal, o desconvidado inconveniente, de pijama e sorriso amarelo, acompanhado pelo seu felino, o gato Sinatra. Sem pedir licença, os dois invadiram a cozinha. "Viemos ajudar!", exclamou Juvenal, ligando a torneira para o caudal máximo. Enquanto o homem quebrava duas taças de cristal, o gato saltava para a bancada, lambendo os pratos sujos. Juvenal guardou tudo engordurado no armário. Sorriu orgulhoso e despediu-se, deixando um rastro de pingos sem cor e caos total.

        No meio daquela confusão na cozinha, o anfitrião recuou sem ver e pisou o rabo do gato Sinatra. O felino soltou um miado estridente e aterrador. Com os olhos em chamas, o bicho fulminou todos com um olhar mortal, levou a pata aos olhos e ... saltando enfurecido para cima da mesa. Derrubou as garrafas de água, arranhou as cortinas e destruiu o resto do jantar. Juvenal apenas sorriu, pegou no gato e saiu, deixando os donos da casa em pânico e ruínas.

     Minutos depois, a porta rangeu suavemente. Para espanto de todos, o gato Sinatra voltou atrás, caminhando com uma elegância surpreendente sobre os escombros. Sentou-se direito, limpou a pata com desdém e, com um miado que quase parecia uma fala humana, pediu desculpas pela atitude ridícula do seu dono. Os anfitriões ficaram petrificados, sem saber se limpavam o vinho ou se respondiam ao felino diplomático, que logo se retirou com toda a sua dignidade.

16/07/26

FUI ABRAÇADO POR UM URSO

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Eu vinha vindo bem distraído,

Vi um monstro na sala e caí para trás,

Dei um grito tão feio e tremido,

Que achei que não ia respirar jamais!


O bicho era enorme, peludo e gordo,

Me deu um abraço que quase me esmaga,

Achei que o meu coração ia a bordo,

Ou que era o fim desta minha saga.


Não tinha garras, nem dente, nem bofe,

O monstro feroz que me deu o susto,

Era um urso gigante de pelúcia soft,

Comprado na loja por um alto custo.


Depois do susto, caí na risada,

Apertei o bicho com todo o carinho,

Levei uma surra de fofura armada,

E agora durmo com ele quentinho.


11/06/26

A CASA DOS BARREIROS

O telhado velhinho
Já estava a pingar,
O grande Zé Justo
O veio mudar. 

Pintaram-se as paredes,
Ficou um primor,
A obra do Justo
Tem muito valor.

 Na Casa dos Barreiros,
 O teto mudou,
 O Zé trabalhou bem,
 A chuva acabou.

Acabou-se a água
A cair no chão,
O Zé fez da casa
Um bom casarão.

A casa está nova 
Da base ao topo, 
Ao mestre Zé Justo 
Paguemos um copo.

06/06/26

MANHÃ DE PRIMAVERA

Sentado no degrau da porta,
Canto e rio sem pressa ou fim,
A paz brilha e conforta,
Com o sol só para mim.

Vem vento fresco da serra
Abraçar este dia de amor,
Saboreio o melhor da terra:
Passas doces cheias de calor.

Piso este granito puro,
Sinto a vida a pulsar,
Agua a correr a meus pés,
A caminho de outro lugar.

Levanto-me e radiante,
Sacudo moscas ao burro,
Giro e brinco num instante,
Num gesto livre e puro.

Dou-lhe um pouco de pão,
Com paciência que ninguém tem,
Enquanto a carroça espera
E o sussurro do repuxo vem.



23/01/25

O CHAFARIZ DA PRAÇA

 


A água gelada, o vento a brincar com o fio de água e o brilho dos grãos de granito são 3 lembranças que andam sempre comigo. Sempre que vou à vila minha aldeia não consigo passar sem provar a água que me deu vida no início da minha vida.


28/12/24

DO REPUXO AO LAVARINTO



O repuxo tem um nome maravilhoso, é apenas repuxo, mas não repuxa nada. Recolhe água do chafariz, aproveita o desnível e oferece a água a quem passa e a outras pessoas. Noutros tempos era o centro da aldeia. As lojas de muitas profissões circundavam o belo lago circular e o repuxo dava água a todos os animais que por ali passavam. Os burros com as suas carroças, os cães e gatos que viviam na mais bela liberdade e o pequeno lago também era habitado por peixes de tamanhos variáveis. Gostava de ficar ali a perceber como aquela máquina funcionava e era junto dele que comia o pão  com queijo da aldeia. Foi ali que levei o primeiro puxão de orelhas e pela primeira vez vi gelo. Nas manhãs de primavera misturavam-se, o ruído da água a correr com as andorinhas que por ali passavam para beber água. Os idosos aproveitavam para usar o precioso líquido para lavar as mágoas e sacudir as moscas.

O lavarinto foi construído com um objetivo muito nobre: ajudar as donas de casa do sítio a lavar a roupa. Esta água não se cruzava com a da fonte anterior. Chegava ali límpida e tranquila. Poucas pessoas vi ali lavarem roupa. O que era normal era ver tudo verde com plantas que não havia noutro lado. A minha mãe preferia ir mais longe ... nunca lá lavou.


HOJE E SEMPRE, ARLINDO DE CARVALHO


 

06/12/24

RUA NOVA - SOALHEIRA

Nos primeiros anos morei, na rua nova, de uma aldeia que hoje é vila. Lembro os natais da minha primeira dezena de anos,, com muito carinho e muita alegria. Tudo encaixava facilmente numa liberdade e num respeito que todos os meus vizinhos cultivavam como os nabos no inverno. Tudo fluía sem sobressaltos e sem discussões. O vento gelado que soprava da serra convidava a procurar a lareira e os preparativos para o natal decorriam com simplicidade e tranquilidade. Presentes? ... sorrisos e filhoses, lindas manhãs de nevoeiro e gelo, na rua onde nasci!

Manhãs brancas cheias de muros cobertos de silêncios. Aproveitei os tempos como se fosse o melhor da vida. Apesar da penumbra do tempo tentar apagar as minhas lembranças recordarei sempre a minha família, os meus amigos e as botas molhadas que faziam corar a minha mãe.

A rua continua a chamar-se nova e a rampa de 80 metros lá continua cheia de paralelepípedos de granito. 

É sempre bom regressar àquele canto do mundo.