15/10/26

OS MELHORES DIAS

 


(Ou: como desperdiçar poesia porque o GPS não apanha sinal)

O tempo passava devagar demais. Mas devagar ao nível de ver uma corrida de caracóis em câmara lenta. Era uma serenidade tão perfeita que, honestamente, já me estava a dar cabo dos nervos. Uma paz que crescia comigo, apesar de eu nunca ter pedido este retiro espiritual ao universo. Mas pronto, lá vinha aquela cadência diária, tipo música de elevador que não dá para desligar.

     Acordava com uma certeza absoluta: lá fora, tudo rimava. O que é poeticamente bonito, mas logisticamente um inferno, porque tentar comprar pão em verso logo às oito da manhã devia ser crime. Os meus passos iam marcar o ritmo da incerteza do que se passava muito longe. Basicamente, eu não fazia ideia do que andava a fazer, mas fingia que a minha desorientação era "charme e mistério".

    Não havia desculpas para dar, nem viagens para evitar. Era decidir e pronto. E como tudo era tão breve, a única vantagem real é que o desespero logístico foi cancelado:

- Sem malas para fazer: O que é ótimo, porque eu esqueço-me sempre das escovas de dentes.

- Sem despedidas para chorar: poupou-se em lenços e em figuras tristes no apeadeiro.

    Havia meses em que nada chocava. Nem os carros, nem as opiniões, nem duas fatias de torrada na minha boca. Nós simplesmente íamos deixando-nos ir, com o carisma de duas algas à deriva. E o futuro? O futuro não tinha razão para estar longe. O único culpado de eu estar perdido era eu mesmo, que consegui ser o único gajo errante (leia-se: sem sentido de orientação) naquele local do mundo.

Quando tento desenhar os passos onde aprendi a andar, o que é que encontro? Vento, luar e, muito provavelmente, humidade que me vai dar cabo das costas amanhã. Estico a passada para parecer confiante, falho um degrau e perco-me. No final, fico a olhar para o céu com cara de parvo, a achar que afinal não fui capaz de amar (ou que só preciso de comer qualquer coisa).

Ficam para a história: as noites em que não mudei de pose na pista de dança por medo de rasgar as calças.

10/10/26

A TAPADINHA DOS MEUS AVÓS

 

      A meio da tarde de um dia de agosto, o calor na Beira não pede licença; impõe-se. Foi exatamente sob esse calorão que decidi fazer o caminho de sempre para visitar os meus avós paternos na Tapadinha. Aquilo não é apenas um lugar no mapa; é um vale encantado. Mas desenganem-se os que procuram modernices de fadas ou duendes por ali. Nunca se viu tal bicho. O verdadeiro encanto dali é outro, mais antigo e feito de pedra. Lá no poente, austera e milenar, ergue-se a Serra da Gardunha. É ela a patroa do sítio, gerindo com pulso de ferro o destino de cada oliveira, o temperamento das trovoadas e o rumo do vento.

      Quando me aproximei da casa, o cenário parecia saído de uma pintura suspensa no tempo. Não se via uma alma viva no lugar e os únicos que pareciam ter energia eram os ramos das árvores, que dançavam uma valsa agitada ao sabor da brisa serrana.

      Subi ao cabeço e sentei-me. Diante de mim, o vale abria-se como um anfiteatro de terras aráveis no final do verão. Para quebrar o silêncio do mundo, franzi os lábios e soltei um assobio longo, ritmado. O vale, generoso, não me deixou a cantar sozinho: devolveu-me em stereo a melodia com uma nitidez perfeita. Ali fiquei uns minutos, num dueto afinado entre mim, o vento no rosto e os quatro cantos do lugar.

- Pensava que era o teu avô! — a voz terna da minha avó quebrou o feitiço do assobio. Tinha chegado de mansinho, com o avental limpo e o olhar doce e brilhante. - Tens mesmo a quem sair…. Muito afinado e sem perder uma única nota musical!

Sorri, levantando-me para lhe dar um beijo que sabia a carinho guardado.
- Olá, avó! Como vai a vida por aqui?
- Tudo bem, meu filho. Anda para dentro. Vamos provar o pão e o queijo, que o teu padrinho já não tarda aí.

      Entrar naquela casa é acionar um mecanismo onde o relógio faz greve. O ritual era o de sempre, sagrado e imutável. A mesa de madeira corria para se encostar à parede protetora. Por cima dela, colada na parede, estendiam-se folhas de jornal amareladas pelo tempo. O mais curioso é que, ao passarmos os olhos pelos títulos antigos, percebia-se que há notícias que são sempre atuais; o mundo lá fora roda, muda de protagonistas, mas os dramas e as linhas mantêm-se iguais. Já o pão e o queijo da minha avó, esses não mudam: continuam a ser o melhor banquete que a terra tem para oferecer.

      Entretanto, a porta rangeu e o meu avô entrou, trazendo com ele o cheiro a campo e a sabedoria de quem conhece cada palmo de terra. Sentámo-nos os três. Ali, as folhas de jornal perderam o interesse. Falámos do milho, que este ano pedia atenção; da força da água da ribeira; e daquela nascente milagrosa que, por mais que o verão castigasse, teimava em nunca secar.

- E as maçãs, avô? - perguntei, sabendo a resposta.
- Estão lá no poço, na sombra boa - respondeu ele, com um meio sorriso no canto da boca. - A boiar na água fresca, à tua espera.

      O poço do meu avô sempre foi o melhor frigorífico do mundo. Era único, cavado no arenito consolidado, brilhava com a luz do sol e a água era a mais cristalina do mundo. Aquelas maçãs, que caiam diretamente da macieira sob o sol impiedoso de agosto, tinham o sabor exato da infância.

      Foram momentos puros de partilha, daqueles em que o amor não precisa de grandes discursos para se fazer notar; basta o barulho do queijo a ser cortado e o som das palavras mansas dos meus queridos avós.

      Aos poucos, a Gardunha começou a estender a sua sombra cinzenta sobre o vale. O crepúsculo de agosto trazia uma aragem fresca e a certeza de que o dia chegava ao fim. Despedi-me com os beijos demorados do costume e com o coração visivelmente mais leve do que quando tinha chegado.

      Enquanto subia o caminho de regresso à Soalheira, olhei para trás uma última vez. Lá em cima, no cume idealizado da serra, imaginei o galo da Gardunha a dar o seu boa-noite ao vale, vigiando a Tapadinha e garantindo que, por ali, as coisas preciosas continuam a salvo do tempo.

08/10/26

A ÚLTIMA VEZ QUE TE VI

 

A água escorria, de manso ou de louco,
Saindo da fonte num drible ao tempo,
E o vento soprava, de pouco em pouco,
Levando as graças num leve momento.

E lá estavas tu, num silêncio profundo,
Com o teu balde azul bem seguro na mão,
Triste, mas bela (a mais bela do mundo!),
Dizendo adeus à nossa ilusão.

O gelo nem pôde sequer derreter,
Pois falta de fogo era o nosso problema!
Foste-te embora, p'ra tudo esquecer,
De balde vazio... que trágico dilema!

Caíram as máscaras de um carnaval,
Fugiram segredos que a gente ocultava.
O nosso romance chegou ao final:
A página vira... e a história acabava!


04/10/26

PORMENORES DA VIDA

 


        Naquela terra de sonhos grandes e horizontes curtos, o mundo dividia-se estritamente entre as Marias e os Maneis. Não era falta de imaginação, longe disso! Era uma espécie de preguiça sagrada misturada com um respeito tão profundo pelos antepassados que quase roçava o medo de que, se chamassem outro nome, o fantasma do avô se enganasse na morada. Imagine-se o caos cósmico de um homem gritar "Maria!" à janela e ver trinta cabeças espreitarem ao mesmo tempo, todas com o mesmo olhar severo, prontas para deserdar o atrevido.

       Nesses tempos, a moda era de uma simplicidade quase gótica. As mulheres vestiam-se com a escuridão da noite, como se guardassem o luto eterno de um segredo que ninguém ousava perguntar. Já os homens operavam um milagre semanal: a metamorfose da véspera de sábado. Passavam seis dias camuflados na poeira do trabalho e, de repente, ao sétimo dia, surgiam lavados e perfumados, brilhando como reis de província na missa ou na taberna, para logo na segunda-feira regressarem à sua gloriosa armadura de terra.

       Mas a vida, essa criatura paradoxal e meio louca, corria por baixo dessas roupas escuras. O palco do mundo estava sempre dividido em dois lados que teimavam em não se cruzar, mas que dançavam a mesma música:

     Os eternos figurantes do bloqueio: aquelas almas cinzentas que gastaram os seus dias a tentar atrapalhar o passo alheio. Ficaram para trás, petrificadas no próprio labirinto dos seus pensamentos invejosos, enquanto a caravana passava.

      Os zangados de alma viva: Gente que andava em guerra aberta com o destino, de punhos cerrados contra a vida, mas que, curiosamente, no meio da tempestade da sua fúria, continuavam a trabalhar e a amar com uma intensidade feroz.

      Os ilusionistas do tempo: os poucos que, sem saberem lidar com a crueza do presente, tentavam fintar a realidade embrulhando-a em presentes caros e comemorações ruidosas, como quem tenta tapar o sol com uma peneira.

        No fim, entre Marias poetas e, Maneis domingueiros, a vida revelou-se esta maravilhosa loucura: uma comédia onde todos sabiam o guião, mas fingiam sempre que era a primeira vez que entravam em cena.

29/09/26

NA SOALHEIRA SOU FELIZ


      Soalheira, aqui sou imensamente feliz, com o vento a abraçar-me a alma e os caminhos abertos sob os meus pés!

      Lembro-me de ti com um aperto doce no peito; não há um único dia em que o meu pensamento não viaje até aos teus cantos. Terra abençoada dos meus pais e dos meus avós, cada som teu ecoa e vibra dentro de mim como um hino! É por isso que, por onde passo, vou soltando ao vento as canções lindas que a minha mãe me ensinou, mantendo viva a nossa história.

      Crescem em mim as memórias das festas e das procissões, sonhos dourados que parecem ter acontecido ontem e que iluminam o meu hoje. Por mais que o tempo corra e os anos passem, os meus olhos revêm sempre esses campos castanhos, tudo banhado e tingido pelo ouro do sol. Esta terra ficará gravada no meu coração até ao fim dos meus dias!

      Sinto uma energia radiante e corro em direção ao ponto mais alto da aldeia! Quero soltar palavras de gratidão ao sol, pedir perdão a Deus de alma leve, e cruzar os céus com olhares brilhantes e cantares festivos.

      E quando o Chico finalmente chegar, que festa vai ser! Já corre a voz por todas as ruelas e a aldeia inteira já se está a juntar. Vamos todos a caminho da Casa da Misericórdia, de braços abertos e mesas prontas para uma ceia que cheira a tradição e a aconchego. Vamos trocar os sorrisos mais puros e, enquanto o Chico faz vibrar as cordas da guitarra, a nossa gente partilha as travessas de couve galega, os ovos cozidos no ponto e o melhor bacalhau, regado com o azeite da nossa terra.

       Erguem-se as vozes e solta-se a quadra que todos sabemos de cor:

       Ó minha aldeia querida,
      Terra de tanta alegria,
      Quem te tem no coração,
      Pensa em ti de noite e dia!

       A ceia e a celebração da nossa gente não podem esperar! Acendam já essas lareiras e tragam o aconchego para o pavilhão, que nós vimos cheios de fome de vida, de união e desse prato que sabe a família! E tu, Chico? Já tens a guitarra afinada para dar o mote à próxima cantiga?

24/08/26

PARA MINHA MÃE

Na Soalheira o sino tocou,
O senhor padre Luciano chegou!
Homem de fé e de grande doutrina,
Queria a batina com o toque da Etelvina.

— Ó Mestre Manuel, homem de respeito,
Espero que o nó tenha ficado bem feito!
Se o botão cai no altar do Senhor,
A sua costura perde todo o valor!

O velho alfaiate, mestre do compasso,
Limpou as mãos e deu um passo:
— Senhor padre, não há aqui falha,
A minha agulha nunca se atrapalha!

Se o botão fugir ou a linha partir,
É porque o senhor não pára de hóstias engolir!
A Etelvina riu, o mestre piscou o olho,
E o padre Luciano nem teve piolho!

Os aprendizes, firmes e hirtos,
Olhavam a batina sem dar um grito.
O tecido escuro assentava que nem uma luva,
Pronto para a missa, viesse sol ou chuva!


18/08/26

EU GOSTO DE TI PORQUE ...

 

Eu gosto de ti porque és o sol que me derrete,
Ó Soalheira, meu destino e meu hino!
O teu queijo e o teu calor prendem-me à rede,
E no teu berço eu volto a ser menino!

Eu gosto de ti porque não és um pesadelo,
És a terra mais linda, aquela que escolhi.
No meu peito colaste um eterno selo:
Eu simplesmente não funciono sem ti!

Eu gosto de ti porque se eu for para Marte,
Levo a Gardunha e a saudade no coração.
A minha alma nunca se perde em nenhuma parte...
Porque a Soalheira segura sempre a minha mão!

17/08/26

MANHÃ SUBMERSA, ALDEIA SEM SOL

 


     Os sinos da igreja começam a tocar com aquela força abrutalhada, funcionando como o despertador oficial para garantir que ninguém consegue dormir até mais tarde. Lá fora, o cenário é caótico. O vento vai sussurrando piadas de mau gosto ao ouvido das pessoas, enquanto a chuva vai caindo sem dar tréguas, decidida a estragar o penteado de toda a gente.

     No meio das poças de água, lá vai o Chico Derrapagem, o clássico atrasado do dia, a correr como se estivesse nas Olimpíadas, a fazer figuras tristes e a rezar para não escorregar no próximo charco. Alheios a este desespero, os lenhadores Quim Brasa e Mano Praça vão fumando o seu cigarro matinal, empurrando o trabalho com a barriga e poluindo o ar antes de se fazerem à estrada, já que o seu caminho os leva à serra da Gardunha.

     Entretanto, no centro da aldeia, a vida acontece a passo de caracol. Chega a Dona São para buscar o pão, marchando com uma energia invejável porque nem o temporal a impede de tomar o seu pequeno-almoço. Ao lado, o Mestre Passa Frio já abriu a porta da oficina, bocejando e a olhar para a rua com cara de poucos amigos.

     No meio da praça, o chafariz espalha água pelo meio de duas pedras um claro exagero dramático para quem já está a levar com uma tempestade em cima.

     Nisto, o Piloto, um cão vadio bem-sabido, chega, olha para aquela miséria de tempo, mede todo o espaço com os olhos e segue o seu caminho. Debaixo de um teto, o gato Fitas exibe os bigodes molhados e uma cara de profundo arrependimento por ter saído da cama. O seu dono, o Zezé Preguiça, que não é parvo nenhum, não vem e continua a dormir, tapado até às orelhas.

     A tragédia matinal atinge o seu pico quando o Chico Derrapagem, num sprint desesperado e completamente cego pela chuva, perde o controlo dos travões nas pedras da calçada. Como um autêntico projétil humano, o Chico desliza pela lama e vai esbarrar diretamente contra a Dona São da Coxa, que regressava triunfante com o seu pão.

     O impacto é digno de um filme de ação. Com o choque, o pão voa pelos ares e vai aterrar mesmo em cima do focinho do gato Fitas, que aproveita a oferenda divina e foge logo com o pequeno-almoço na boca. A Dona São da Coxa, armada com o seu guarda-chuva pesado, não perde tempo e começa a aviar valentes bengaladas no Chico, que ainda está no chão a tentar perceber onde tem o nariz.

     A ver a chinfrineira da janela, o Mestre Passa Frio solta uma gargalhada tão genuína que até lhe desalinha o bigode perfeito. Na berma da estrada, o Quim Brasa tira o cigarro da boca, deita o fumo fora e diz para o companheiro: "Olha lá, Mano... afinal hoje não vamos à serra, com esta chuva ...." O Piloto dá uma última olhadela ao espetáculo, mija ostensivamente na roda do chafariz e afasta-se com dignidade. E na praça vazia, enquanto o Chico pede desculpa de joelhos, o Zezé Preguiça continua a ressonar na cama, e o repuxo... bem, o repuxo continua orgulhosamente na sua, a lavar o cenário do crime.