A meio da tarde de um dia de agosto, o calor na Beira não
pede licença; impõe-se. Foi exatamente sob esse calorão que decidi fazer o
caminho de sempre para visitar os meus avós paternos na Tapadinha. Aquilo não é
apenas um lugar no mapa; é um vale encantado. Mas desenganem-se os que procuram
modernices de fadas ou duendes por ali. Nunca se viu tal bicho. O verdadeiro
encanto dali é outro, mais antigo e feito de pedra. Lá no poente, austera e
milenar, ergue-se a Serra da Gardunha. É ela a patroa do sítio, gerindo com
pulso de ferro o destino de cada oliveira, o temperamento das trovoadas e o
rumo do vento.
Quando me aproximei da casa, o cenário parecia saído
de uma pintura suspensa no tempo. Não se via uma alma viva no lugar e os únicos
que pareciam ter energia eram os ramos das árvores, que dançavam uma valsa
agitada ao sabor da brisa serrana.
Subi ao cabeço e sentei-me. Diante de mim, o vale
abria-se como um anfiteatro de terras aráveis no final do verão. Para quebrar o
silêncio do mundo, franzi os lábios e soltei um assobio longo, ritmado. O vale,
generoso, não me deixou a cantar sozinho: devolveu-me em stereo a melodia com
uma nitidez perfeita. Ali fiquei uns minutos, num dueto afinado entre mim, o
vento no rosto e os quatro cantos do lugar.
- Pensava que era o teu avô! — a voz terna da minha
avó quebrou o feitiço do assobio. Tinha chegado de mansinho, com o avental
limpo e o olhar doce e brilhante. - Tens mesmo a quem sair…. Muito afinado e
sem perder uma única nota musical!
Sorri, levantando-me para lhe dar um beijo que sabia a
carinho guardado.
- Olá, avó! Como vai a vida por aqui?
- Tudo bem, meu filho. Anda para dentro. Vamos provar o pão e o queijo, que o
teu padrinho já não tarda aí.
Entrar naquela casa é acionar um mecanismo onde o
relógio faz greve. O ritual era o de sempre, sagrado e imutável. A mesa de
madeira corria para se encostar à parede protetora. Por cima dela, colada na
parede, estendiam-se folhas de jornal amareladas pelo tempo. O mais curioso é
que, ao passarmos os olhos pelos títulos antigos, percebia-se que há notícias
que são sempre atuais; o mundo lá fora roda, muda de protagonistas, mas os
dramas e as linhas mantêm-se iguais. Já o pão e o queijo da minha avó, esses
não mudam: continuam a ser o melhor banquete que a terra tem para oferecer.
Entretanto, a porta rangeu e o meu avô entrou,
trazendo com ele o cheiro a campo e a sabedoria de quem conhece cada palmo de
terra. Sentámo-nos os três. Ali, as folhas de jornal perderam o interesse.
Falámos do milho, que este ano pedia atenção; da força da água da ribeira; e
daquela nascente milagrosa que, por mais que o verão castigasse, teimava em
nunca secar.
- E as maçãs, avô? - perguntei, sabendo a resposta.
- Estão lá no poço, na sombra boa - respondeu ele, com um meio sorriso no canto
da boca. - A boiar na água fresca, à tua espera.
O poço do meu avô sempre foi o melhor frigorífico do
mundo. Era único, cavado no arenito consolidado, brilhava com a luz do sol e a
água era a mais cristalina do mundo. Aquelas maçãs, que caiam diretamente da
macieira sob o sol impiedoso de agosto, tinham o sabor exato da infância.
Foram momentos puros de partilha, daqueles em que o
amor não precisa de grandes discursos para se fazer notar; basta o barulho do
queijo a ser cortado e o som das palavras mansas dos meus queridos avós.
Aos poucos, a Gardunha começou a estender a sua sombra
cinzenta sobre o vale. O crepúsculo de agosto trazia uma aragem fresca e a
certeza de que o dia chegava ao fim. Despedi-me com os beijos demorados do
costume e com o coração visivelmente mais leve do que quando tinha chegado.
Enquanto subia o caminho de regresso à Soalheira, olhei para trás uma última vez. Lá em cima, no cume idealizado da serra, imaginei o galo da Gardunha a dar o seu boa-noite ao vale, vigiando a Tapadinha e garantindo que, por ali, as coisas preciosas continuam a salvo do tempo.

