Hoje vieram
comigo dois amigos e vou mostrar-lhes a bela vila da Soalheira. Rapazes vamos,
venha de lá o acordeão e o banjo, que a malta cá do sítio até vai perder o pé!
Mal
começamos a andar, dou por mim a tropeçar no ar.
- Cuidado! - grita o Mark. - Quase que batias com o nariz no nada!
Olhamos bem e percebemos o mistério: estamos a caminhar ao lado de uma
autêntica carroça invisível. Não se vê um único feixe de madeira, mas ouvimos
perfeitamente o chiar das rodas fantasma a ranger nas pedras da calçada e
juraria que cheira a feno fresco vindo do além. Sem pensar duas vezes, atiro a
minha mochila para o ar. Para espanto do Julian, a mochila fica a flutuar a um
metro do chão, perfeitamente apoiada no espaço vazio da carruagem invisível. Se
isto não é comodidade turística, não sei o que será!
Olha eu de
pedra em pedra curtindo o lugar onde eu cresci. Olha o chafariz da praça
correndo sem pressa e eu, como sempre, vou molhar as mãos, fazer concha e beber
- Está sempre boa e fresca. Nisto, enquanto sacudo a água das mãos, os
meus olhos cruzam-se com os de uma rapariga de sorriso luminoso que passa do
outro lado da praça. O meu coração falha uma batida. Esqueço-me de como se
respira, tento fazer um manguito galante de galã de cinema, mas acabo por
tropeçar na porcaria da barra invisível da nossa carroça e caio de joelhos num
espalhafato monumental. Ela solta uma gargalhada cristalina que ecoa por toda a
vila. O romance bateu-me forte na alma, e a comédia bateu-me diretamente nos
joelhos.
- Continuem,
amigos, que o repuxo nos espera! - disfarço eu, levantando-me depressa e
limpando o pó com uma dignidade que já não tenho.
É um
laguinho com história, e olha, lá está a minha tia Madalena à varanda!
- Um beijo, tia! Vamos lá, malta, toque lá uma música dedicada à minha tia!
A malta vem
daí e dança comigo à volta do repuxo. Acelerem, agora para o outro lado! Com a
animação, o Mark entusiasma-se tanto que tenta dar um passo de dança
acrobático, escorrega no lodo do repuxo e quase vai parar dentro da carroça
invisível, que solta um rangido que parece uma gargalhada do além.
Olha, o cão
Deny também vem ver o que se passa, a ladrar furiosamente para o vazio,
claramente confuso com o cheiro a palha invisível.
- Então e a dona? E a Madalena?
- Foram ao supermercado comprar o almoço.
- Ok!
A minha tia
agradece lá de cima, solta um beijo romântico para o ar que por azar apanha o
Julian em cheio na bochecha, e diz adeus. Muda a música e descemos ao lago de
Santo António e à capela. O sapateiro está lá, tal como um gigante de pedra. Lá
em baixo apanhamos o alcatrão. Venham daí que é mais fácil andar, até porque
guiar uma carroça invisível no paralelo exige uma perícia que nós não temos.
Olha a zona
dos cafés! Mas aqui é só pés de chumbo, agarrados às minis, em pose de
descanso. Só nos olham de lado, sem perceber como é que as nossas mochilas
flutuam sozinhas pelo meio da rua. Para quebrar o gelo e o espanto paranormal,
convidam-nos a comer pão da Lardosa com queijo da Soalheira. E aí, meus amigos,
nunca dizemos que não.
A rapariga
misteriosa do chafariz aparece novamente, senta-se na mesa do lado e pisca-me o
olho enquanto saboreia o queijo. O meu coração volta a acelerar e, no meio do
nervosismo, tento dar um gole na minha cerveja, mas acabo por falhar a boca e
entornar metade na camisola. O Mark e o Julian desatam à gargalhada e os pés de
chumbo do café acompanham o coro.
Sai mais uma
mini para afogar as mágoas do amor e descansamos. Por hoje é tudo, entre
brindes, assombrações rurais e paixões fulminantes. Até à vista!
Agradecimento especial ao Mark, ao Julian e ao
fantasma que nos emprestou o veículo.






