Senhoras, senhores,
terráqueos em geral e digníssimos habitantes da mística Soalheira e arredores!
Preparem os vossos corações (e os vossos ouvidos),
porque hoje regressei à Soalheira e trago comigo uma crónica tão inacreditável
que até os deuses do country ficariam boquiabertos. Comigo recrutei uma
comitiva de elite: o Dirceu, o Amadeu e o Ameixas — três autênticos magos do
banjo, capazes de fazer saltar faíscas das cordas e de meter qualquer esqueleto
a dançar!
Estacionámos a nossa caravana nossa bólide
estrategicamente perto do cemitério (só para acordar as almas com boas vibrações)
e avançámos, destemidos, em direção à Senhora das Necessidades. O plano era
infalível: encontrar espécimes humanos para lhes chinfrinar a mioleira,
espalhar ritmos alucinantes e semear a loucura do country americano em solo
beirão. Mas, mistério dos mistérios… as ruas pareciam saídas de um filme de
cow-boys fantasma. Nem uma alma!
Foi então que o sobrenatural aconteceu. Num canto do
santuário, banhada por um feitiço de luz — metade da cabeça à sombra e o resto
do corpo a bronzear ao sol —, estava a lendária gata Piruças.
Adivinhando o nosso desespero, a Piruças abriu um olho, bocejou e, num
português impecável, digno de uma pivô de telejornal e sem ponta de sotaque,
revelou o segredo:
- "Meus caros, o povo foi todo à Web Summit… que este ano, por capricho
tecnológico, se realiza em Castelo Branco! Mas acalmem os banjos, que eles já
estão a chegar. Está quase na hora de o meu humano me servir o lanche real, e
eu não tolero atrasos."
E não é que a gata era bruxa? Segundos depois,
rasgando o horizonte com uma nuvem de purpurina e fumo, surge a camioneta (com
lotação reduzida para manter o charme e o distanciamento social). Assim que os
pneus travaram, os nossos virtuosos romperam num acorde mágico de banjos. O
efeito foi instantâneo: as dores nas pernas da viagem evaporaram-se num sopro
de feitiçaria musical!
A atmosfera explodiu em alegria! O grande Barandas,
homem de mil saberes, assumiu o papel de guia turístico e historiador oficial,
desvendando os segredos sagrados daquele santuário. Depois, levou os músicos ao
topo do coreto para contemplarem a aldeia do ponto mais alto do mundo (ou
quase) e, para selar este pacto de amizade, partilhámos um banquete digno de
reis: goles de vinho celestial acompanhados por pipocas douradas - as
gloriosas sobras da grande viagem à capital de distrito.
Para animar ainda mais a festa, apareceu o famosíssimo
cão Deny, que vive uma vida de lorde em férias repartidas entre o 'jet set' de
Lisboa e o ar puro da Soalheira. O Deny ficou tão possuído pelo ritmo do
country que começou a rodopiar numa dança frenética e, num prodígio de
flexibilidade canina, conseguiu dar uma valente dentada na própria cauda - vingando-se, finalmente, de uma melga gigante que o tinha atacado!
O pessoal, mesmo com o cansaço a dar cabo deles,
redopiou, saltou e valsou até gastar a última gota de energia. Quando o feitiço
do baile terminou, alguns estavam tão nas nuvens (e tinham acordado tão cedo)
que tiveram de ser levados em braços, como autênticas estrelas de rock num
festival de verão.
O relógio do universo marca agora seis badaladas da
tarde. O sol começa a despedir-se com cores de fogo. É hora de estender as
nossas mantas voadoras e toalhas no chão, guardar os banjos mágicos nas caixas
e deixar o corpo descansar, porque a alma… essa ainda está a dançar na
Soalheira!






