Soalheira, aqui sou imensamente feliz, com o vento a
abraçar-me a alma e os caminhos abertos sob os meus pés!
Lembro-me de ti com um aperto doce no peito; não há um
único dia em que o meu pensamento não viaje até aos teus cantos. Terra
abençoada dos meus pais e dos meus avós, cada som teu ecoa e vibra dentro de
mim como um hino! É por isso que, por onde passo, vou soltando ao vento as
canções lindas que a minha mãe me ensinou, mantendo viva a nossa história.
Crescem em mim as memórias das festas e das
procissões, sonhos dourados que parecem ter acontecido ontem e que iluminam o
meu hoje. Por mais que o tempo corra e os anos passem, os meus olhos revêm
sempre esses campos castanhos, tudo banhado e tingido pelo ouro do sol. Esta
terra ficará gravada no meu coração até ao fim dos meus dias!
Sinto uma energia radiante e corro em direção ao ponto
mais alto da aldeia! Quero soltar palavras de gratidão ao sol, pedir perdão a
Deus de alma leve, e cruzar os céus com olhares brilhantes e cantares festivos.
E quando o Chico finalmente chegar, que festa vai ser!
Já corre a voz por todas as ruelas e a aldeia inteira já se está a juntar.
Vamos todos a caminho da Casa da Misericórdia, de braços abertos e mesas
prontas para uma ceia que cheira a tradição e a aconchego. Vamos trocar os
sorrisos mais puros e, enquanto o Chico faz vibrar as cordas da guitarra, a
nossa gente partilha as travessas de couve galega, os ovos cozidos no ponto e o
melhor bacalhau, regado com o azeite da nossa terra.
Erguem-se as vozes e solta-se a quadra que todos
sabemos de cor:
A ceia e a celebração da nossa gente não podem
esperar! Acendam já essas lareiras e tragam o aconchego para o pavilhão, que
nós vimos cheios de fome de vida, de união e desse prato que sabe a família! E
tu, Chico? Já tens a guitarra afinada para dar o mote à próxima cantiga?
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