10/10/26

A TAPADINHA DOS MEUS AVÓS

 

      A meio da tarde de um dia de agosto, o calor na Beira não pede licença; impõe-se. Foi exatamente sob esse calorão que decidi fazer o caminho de sempre para visitar os meus avós paternos na Tapadinha. Aquilo não é apenas um lugar no mapa; é um vale encantado. Mas desenganem-se os que procuram modernices de fadas ou duendes por ali. Nunca se viu tal bicho. O verdadeiro encanto dali é outro, mais antigo e feito de pedra. Lá no poente, austera e milenar, ergue-se a Serra da Gardunha. É ela a patroa do sítio, gerindo com pulso de ferro o destino de cada oliveira, o temperamento das trovoadas e o rumo do vento.

      Quando me aproximei da casa, o cenário parecia saído de uma pintura suspensa no tempo. Não se via uma alma viva no lugar e os únicos que pareciam ter energia eram os ramos das árvores, que dançavam uma valsa agitada ao sabor da brisa serrana.

      Subi ao cabeço e sentei-me. Diante de mim, o vale abria-se como um anfiteatro de terras aráveis no final do verão. Para quebrar o silêncio do mundo, franzi os lábios e soltei um assobio longo, ritmado. O vale, generoso, não me deixou a cantar sozinho: devolveu-me em stereo a melodia com uma nitidez perfeita. Ali fiquei uns minutos, num dueto afinado entre mim, o vento no rosto e os quatro cantos do lugar.

- Pensava que era o teu avô! — a voz terna da minha avó quebrou o feitiço do assobio. Tinha chegado de mansinho, com o avental limpo e o olhar doce e brilhante. - Tens mesmo a quem sair…. Muito afinado e sem perder uma única nota musical!

Sorri, levantando-me para lhe dar um beijo que sabia a carinho guardado.
- Olá, avó! Como vai a vida por aqui?
- Tudo bem, meu filho. Anda para dentro. Vamos provar o pão e o queijo, que o teu padrinho já não tarda aí.

      Entrar naquela casa é acionar um mecanismo onde o relógio faz greve. O ritual era o de sempre, sagrado e imutável. A mesa de madeira corria para se encostar à parede protetora. Por cima dela, colada na parede, estendiam-se folhas de jornal amareladas pelo tempo. O mais curioso é que, ao passarmos os olhos pelos títulos antigos, percebia-se que há notícias que são sempre atuais; o mundo lá fora roda, muda de protagonistas, mas os dramas e as linhas mantêm-se iguais. Já o pão e o queijo da minha avó, esses não mudam: continuam a ser o melhor banquete que a terra tem para oferecer.

      Entretanto, a porta rangeu e o meu avô entrou, trazendo com ele o cheiro a campo e a sabedoria de quem conhece cada palmo de terra. Sentámo-nos os três. Ali, as folhas de jornal perderam o interesse. Falámos do milho, que este ano pedia atenção; da força da água da ribeira; e daquela nascente milagrosa que, por mais que o verão castigasse, teimava em nunca secar.

- E as maçãs, avô? - perguntei, sabendo a resposta.
- Estão lá no poço, na sombra boa - respondeu ele, com um meio sorriso no canto da boca. - A boiar na água fresca, à tua espera.

      O poço do meu avô sempre foi o melhor frigorífico do mundo. Era único, cavado no arenito consolidado, brilhava com a luz do sol e a água era a mais cristalina do mundo. Aquelas maçãs, que caiam diretamente da macieira sob o sol impiedoso de agosto, tinham o sabor exato da infância.

      Foram momentos puros de partilha, daqueles em que o amor não precisa de grandes discursos para se fazer notar; basta o barulho do queijo a ser cortado e o som das palavras mansas dos meus queridos avós.

      Aos poucos, a Gardunha começou a estender a sua sombra cinzenta sobre o vale. O crepúsculo de agosto trazia uma aragem fresca e a certeza de que o dia chegava ao fim. Despedi-me com os beijos demorados do costume e com o coração visivelmente mais leve do que quando tinha chegado.

      Enquanto subia o caminho de regresso à Soalheira, olhei para trás uma última vez. Lá em cima, no cume idealizado da serra, imaginei o galo da Gardunha a dar o seu boa-noite ao vale, vigiando a Tapadinha e garantindo que, por ali, as coisas preciosas continuam a salvo do tempo.

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